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Raios, Espelhos e Navalhas

Palavras são como raios que atravessam o peito.
Às vezes, com trovões, que só assustam pela luz forte, pelo estrondo e logo vão embora.
Outras, precedem apenas uma chuva, que molha, lava, refresca e depois passa.
Mas outras antecedem tempestades, das mais fortes, com rajadas de ventos, pingos grossos e até granizo.
Palavras têm esse poder de nos atravessar e até nos deixar sem chão.

Ele disse:
"Eu (tô indo) pra lá, pra cá, pra um lado, pro outro, né!? Mas eu tô sempre sozinho... Agora eu tava reparando. Mas a solidão deu um espaço pro trabalho, assim, que eu não consigo mais... Mas às vezes quando eu paro e penso: "Caraca, eu tô sempre sozinho, mano! Eu faço tudo sozinho! Eu sou muito sozinho! Caralho! Vai se fuder!"... Às vezes eu penso..."

Por mais que ele estivesse falando apenas sobre o trabalho dele,
Aquilo me rachou no meio e por impulso eu quis dizer: "Você não está sozinho! Estou aqui pra você! (Basta você querer!)"
Mas não disse.
Metade de mim queria falar, consolar...
A outra metade mandava eu segurar, não falar, não me entregar tanto.
"E se ele correr!? E se ele fugir?!"

Palavras são como espelhos que refletem o que está dentro de si.
Eu queria tanto dizer pra ele o que sinto,
agradecer pelas boas vibrações, pelo acolhimento, pelo carinho, pelos ensinamentos...
Mas fico insegura.
Tantas vezes me entreguei e me tornei obsoleta. 
Tantas vezes trocada, descartada como algo já consquistado, figurinha repetida.
Palavras... Ações... Traumas...

Ele diz:
"Só se pode ter DR quem tem uma relação"... E me dá a entender que não temos.
Ele já sinalizou que não quer se prender a nada, que pretende voar, viajar, viver na estrada...
Ele não me dá chance nem de tentar.
Estou confusa, entre o meu querer, o querer dele e as palavras que ele me diz.
Por tantas vezes tão amável e cheio de saudade, 
por outras tão seco e desinteressado...

Palavras são como navalhas, te cortam, mutilam, sangram...
Te fazem pensar, refletir, ter cuidado ao serem pronunciadas...
E pra não correr o risco de fazer ele correr, eu me calo.
E a cada corte (palavra) eu recebo, me calo mais...
Fico ruminando e refletindo sobre morrer de amor ou de silêncio.
Palavras...

Mariana Lohmann (15/01/2021)

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