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Sangramento (Vinicius Castro)


Vai, devolve meu formato
Que hoje o meu sapato
Já não cabe em mim
Vai, me alforria o peito
Que hoje a cruz no leito
Rasga o meu cetim

Vai, renova o guarda-roupa
Que hoje a carne é pouca
Pra tanto algodão
Vai mas saiba, sobretudo,
Que hoje o sobretudo
Arrasta pelo chão

Vai, me autoriza o riso
Que hoje eu só preciso
De mais circo e pão
Deixa eu me esquecer da história
Me concede a glória
De outra encarnação

Vai, que esse meu corpo roto
Agora é só um porto
De injúria e dor
Submerge nossa nau perdida
Pra que eu nem consiga
Relembrar da cor

Vem, reforma minha alma
Remodela a calma
Com pedra-sabão

Vem, me reconstrói a cara
Em pedras de carrara
Me remenda a construção

Vem, vê se suporta o fardo
Que hoje o mesmo dardo
Crava um peito ateu
Vem e me estanca a tempo
Que esse sangramento
Ainda é sintoma teu

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